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O desafio de tirar o carro do porto na Índia

A verdade é que sabíamos que seria um desafio de tirar o carro do porto na Índia… Só não imaginávamos que custaria quase todos os nossos dias no país.

O plano original sempre foi enviar o carro da África para a Índia. Esse plano foi desenhado lá atrás, ainda no Brasil e considerávamos a Índia uma passagem fundamental para quem está dando a volta ao mundo de carro. Pelo menos essa é a nossa opinião, rs!

Após semanas para liberar o carro temos certeza que o grande erro foi ter contratado a UPS SCS Índia para ser o nosso agente em Mumbai. Quando começamos as conversas com eles ainda do Quênia não tivemos a sensibilidade de ver que teríamos mais problemas do que imaginávamos.

Mas agora é tarde…

Focados em liberar nosso carro o mais breve possível, pegamos um hotel próximo ao escritório deles e assim que chegamos, entramos em contato para marcar uma reunião e entregar os documentos. Até ai, tudo indo bem!

Chegando lá (dia 1) entregamos tudo em mãos, discutimos o processo, o tempo e pedimos para imprimir e nos entregar o orçamento completo dos custos.

Saímos de lá com o seguinte discurso: a liberação do carro será fácil, dois dias. A bagagem será mais complicado, mas em dois dias vamos juntos ao porto já resolver isso. Nos pareceu razoável e voltamos para o nosso hotel otimistas. No dia seguinte enviamos um e-mail questionando o horário que iríamos no dia seguinte e nada de resposta.

O tal dia chegou e nada deles. Mais do que nos sentindo desrespeitados, nos sentíamos presos. Não queríamos sair do hotel e correr o risco de eles resolverem ir para o porto e não estarmos por perto.

Enfrentando o trânsito para ir até o porto.

Sempre no dia seguinte…

No dia seguinte disseram que teríamos que assinar um documento para fazer a aduana das bagagens de dentro do carro, novamente falaram que alguém viria as 14hrs e as 17hrs ainda não havia aparecido, passamos o dia em função disso e logo dentro do hotel.

Papéis assinados as 18hrs. Contudo no dia seguinte o mesmo papel deveria ser assinado novamente, falaram que eu assinei no local errado. Detalhe, eu assinei onde o entregador mandou. Pedi que me enviassem demarcado onde eu deveria assinar. A mesma novela se repetiu no dia seguinte.

O plano de ir ao porto ia por água abaixo, já havia passado 5 dias desde a reunião e agora teríamos que esperar o final de semana para retomar as conversas. Havíamos gastado 5 dias de hotel, 5 dias do nosso visto e nada havia andado.

Tínhamos o convite de um casal de brasileiros no sul de Mumbai, onde estaríamos próximos da área turística e não teríamos que gastar com hospedagem. Foi para lá que fomos, pelo menos aproveitaríamos o final de semana em boa companhia!

No escritório onde resolvíamos a papelada.

Sem poder de barganha nenhum tivemos de dançar a música dos indianos

Resgate do carro: Estávamos em uma posição delicada, sem nenhum poder de barganha em nossas mãos, e ainda com o visto de 30 dias correndo contra o relógio.

Corremos atrás de $$$ emprestado e efetuamos a transferência com dor no coração para o tirar o carro do porto. Chorei um pouco e consegui baixar para USD 2.150,00.

Agora com tudo pago, só nos restava colocar pressão para irmos ao porto recuperar o carro. Ficou combinado quarta-feira (dia 10) as 11hrs. O porto fica a duas horas de carro, teríamos a tarde para resolver isso… Mas o agente da UPS apareceu as 13hrs (a desculpa dele: transito!), de taxi, aceleramos para o porto ao encontro dos tais sub-agentes que cuidariam do caso.

Com todos os documentos em mãos fomos direto ao agente de aduana que claramente, educadamente e corretamente explicou que um documento simples estava faltando. Tentamos seu supervisor e brecamos no mesmo argumento.

Nossa pergunta era, por que os agentes e sub-agentes não pediram o tal documento antes???

Nessa altura do campeonato já estava claro que o agente enviado da UPS não sabia nada, colocamos pressão nele e eles falou: “eu nunca fiz importação, sou de outra área, eles me mandaram aqui hoje porque estavam ocupados”.

Caramba, o que já era ruim, está ficando pior… O cara era gente fina, mas sem conhecimento de nada, sem uma postura proativa, era mais um expectador do que alguém útil. Ali começamos a assumir as rédeas do processo. Tínhamos que resolver isso logo!

O tal documento era uma carta da federação de automobilismo da Índia que por sorte ficava próximo ao local onde estávamos hospedados. Decidimos ir pessoalmente na manhã seguinte resolver o problema.

A Rachel era a única mulher dentro do porto.

O dia seguinte que nunca chegava

No dia seguinte (dia 11) a UPS enviou um outro agente, esse há 9 anos trabalhando na empresa, mas novamente, sem conhecimento nenhum do tipo de processo que estávamos fazendo. Claramente os caras da UPS estavam pouco se lixando para nós…O cara não sabia responder nenhuma das nossas perguntas. Diante da incapacidade de tomar decisões ou antecipar problemas, tivemos que intervir e tomar o controle.

Para conseguirmos que a federação de automobilismo da Índia emitisse a tal carta, que era relativamente simples, eles precisavam de uma carta de Londres assegurando que o Carnet de Passage (veja mais sobre esse documento aqui) era realmente emitido por Londres.

É completamente bizarro a burocracia. É como se pedissem para o Consulado do Brasil emitir uma carta afirmando que eles que emitiram nosso passaporte.

Um pequeno detalhe, essa carta de Londres eu mesmo havia solicitado em 13 de Novembro, dois meses antes e enviado para a UPS Índia.

Enfim, tínhamos que conseguir uma nova e como Londres está com 5 horas pra trás no fuso horário, nada poderíamos fazer a não ser esperar.

Nós mesmos ligamos para Londres, pedimos para acelerarem o processo.

Combinamos de voltar na manhã seguinte, sexta-feira (dia 12), para retirar a carta. Ficou marcado de encontrar o pessoal da UPS as 10hrs lá no escritório, e de lá seguirmos juntos para o porto.

Nessa noite, Londres nos enviou um e-mail avisando que estava tudo certo, confirmando o que eles haviam pedido.

Horas e horas de espera dentro do porto.

Salvando o carro na Índia!

Com a confirmação de Londres que enviaria o documento, acordamos cedo e seguimos para a federação de automobilismo da Índia, ai começaria o dia mais longo de nossas vidas!

10:00 – Lá estávamos nós, para nossa surpresa o agente da UPS já estava lá. Em uma hora pegamos a carta e poderíamos ir para o porto. Ele, o agente, queria pegar o trem para encontrar alguém não sei onde e então ir de taxi. Fechamos o cerco, ligamos para o chefe dele e dissemos que estávamos indo para o porto direto, com ou sem o funcionário dele.

11:30 – Paramos no Burger King e compramos 4 sanduíches e 4 garrafas de água, esse seria nosso almoço. Uma vez que não rola comer nada na porto, por questão de higiene.

13:45 – Chegamos no porto e já fomos logo recusando os convites para nos sentarmos, ou o cafezinho, chai… queríamos ir direto ao assunto! Chegamos colocando pressão em todo mundo! Nessa altura do campeonato, nosso agente da UPS, era novamente, um mero expectador. Tomamos as rédeas do processo, e se desse errado aquele dia, não seria por moleza.

A primeira bomba foi: o porto está fechado para almoço, só volta as 15hrs. Como? Caramba, pra que temos dez pessoas envolvidas no processo e ninguém avisa isso? Por que não chegamos mais cedo? A resposta era um silêncio… Nosso sub-agente (Capricorn Logistic) que era, em tese, quem sabia “realmente” o processo de liberação do carro continuava otimista que tudo ia dar certo.

15:00 – Por pressão nossa, entramos no porto e seguimos direto para a sala do agente da aduana que havia pedido a tal carta. Ele assinou e carimbou nossos papéis em menos de um minuto. Seguimos para um supervisor para coletar sua assinatura, mas ele estava almoçando e não nos restou opção a não ser sentar e esperar.

Agora imagine tudo isso em um prédio caindo aos pedaços, sujo, com banheiros cheirando a urina, pilhas e mais pilhas de papel por todos os lados, centenas de homens por todos os lados… Nós, claro, éramos os únicos estrangeiros e todos olhavam para nós como se fossemos ETs. Mas uma coisa é fato, todos foram educados, solícitos e estavam sempre de bom-humor. Contudo estávamos ali com um objetivo claro, e só isso nos importava, simples como isso!

15:45 – Meia hora mais tarde, o tal gerente aparece, assina o papel e descemos correndo do quinto andar para o mesmo primeiro agente, novamente pegamos sua assinatura e agora vamos para uma sala cheia de servidores, fria, lá preenchemos um livro, esperamos um agente chegar e jogar algumas informações no sistema.

Subimos para o quarto andar e entramos em uma sala lotada, todos os nossos documentos são transcritos para alguns cadernos, esses em breve estarão nas pilhas que vimos pelo corredor. Visitamos mais um fiscal, esse agora carimba nosso Carnet de Passage (uma espécie de passaporte do carro, veja mais aqui), vamos a uma quinta mulher, essa nem nos olha, nossos agentes pegam seu caderno, preenchem para ela, carimbam para ela…

Tudo isso em meia hora, parece que estamos fazendo progresso! Estamos sorrindo e otimistas. Tudo isso foi feito junto conosco, ficamos na cola deles, puxando eles para não perder tempo…

16:15 – Voltamos para o escritório do sub-agente e lá fomos informados que poderíamos ir para o pátio do porto, onde iriamos resolver das bagagens junto ao carro e então finalizar o processo. Novamente fomos enfáticos que tínhamos que ir logo e fizemos questão de fazer um check se algo estava faltando. Ilusão nossa!

Pegamos um taxi e fomos para o pátio, resolver o desembaraço final da bagagem e liberar o carro. Nosso agente da UPS chegava a ser hilário, ele não tinha ideia do que estava acontecendo, já nem falávamos mais com ele…

Cara bonzinho, mas completamente despreparado. Ficava tudo no colo do sub-agente. Detalhe, nenhum dos dois falavam inglês suficiente para nos explicar o que estava acontecendo. Tentávamos, mas em vão. Ligávamos para os seus chefes e ficávamos em um infinito telefone sem fim… Haja paciência! Chegamos na aduana das bagagens e pátio do carro.

Depois de muita briga e muito dinheiro gasto, a boa alma que resolveu nos ajudar.

15:45 – Meia hora mais tarde, o tal gerente aparece, assina o papel e descemos correndo do quinto andar para o mesmo primeiro agente, novamente pegamos sua assinatura e agora vamos para uma sala cheia de servidores, fria, lá preenchemos um livro, esperamos um agente chegar e jogar algumas informações no sistema.

Subimos para o quarto andar e entramos em uma sala lotada, todos os nossos documentos são transcritos para alguns cadernos, esses em breve estarão nas pilhas que vimos pelo corredor. Visitamos mais um fiscal, esse agora carimba nosso Carnet de Passage (uma espécie de passaporte do carro, veja mais aqui), vamos a uma quinta mulher, essa nem nos olha, nossos agentes pegam seu caderno, preenchem para ela, carimbam para ela…

Tudo isso em meia hora, parece que estamos fazendo progresso! Estamos sorrindo e otimistas. Tudo isso foi feito junto conosco, ficamos na cola deles, puxando eles para não perder tempo…

16:15 – Voltamos para o escritório do sub-agente e lá fomos informados que poderíamos ir para o pátio do porto, onde iriamos resolver das bagagens junto ao carro e então finalizar o processo. Novamente fomos enfáticos que tínhamos que ir logo e fizemos questão de fazer um check se algo estava faltando. Ilusão nossa!

Pegamos um taxi e fomos para o pátio, resolver o desembaraço final da bagagem e liberar o carro. Nosso agente da UPS chegava a ser hilário, ele não tinha ideia do que estava acontecendo, já nem falávamos mais com ele…

Cara bonzinho, mas completamente despreparado. Ficava tudo no colo do sub-agente. Detalhe, nenhum dos dois falavam inglês suficiente para nos explicar o que estava acontecendo. Tentávamos, mas em vão. Ligávamos para os seus chefes e ficávamos em um infinito telefone sem fim… Haja paciência! Chegamos na aduana das bagagens e pátio do carro.

17:32 – A paciência ameaçou acabar quando descobrimos que ficou faltando uma assinatura da aduana, no outro prédio. Eles fechavam as 18hrs. Sem perder tempo tentando entender porque não tínhamos a tal assinatura, começamos a puxar eles pelos braços, mandamos ligar para seus chefes, alertar do problema, pensar soluções… Se não pegarmos nosso carro hoje, não ia ficar barato para ninguém! Cada dia no porto lá se iam 80 dólares nossos em taxas e impostos!

18:12 – Estávamos de volta com o papel assinado. Agora o problema era o seguinte: como tínhamos bagagem dentro do carro, tínhamos que fazer a importação dela. O chefe do setor, um rapaz simpático, nos explicou tudo com calma diante de nosso ar assustado, falou que seria uma taxa simbólica, algo como 1 dólar, mas que como já passava das 18hrs, o caixa estava fechado e teríamos que voltar na segunda.

Desabamos, eu me ajoelhei literalmente, expliquei que o processo, por incompetência dos meus agentes, já durava mais de 15 dias, que eu tinha um visto de 30 dias, sem dinheiro, etc, etc, etc… Foi tudo tão sincero que ele gostou do que ouviu e falou: eu tenho a solução, mas vai demorar! Rapidamente falamos: Podemos sair daqui a hora que for, desde que seja com nosso carro!

19:00 – O simpático rapaz pediu para seus homens refazerem todos os documentos da bagagem, de uma forma que não teríamos que pagar nada e logo não precisaríamos do caixa aberto…. Ficamos quase duas horas em sua sala. Nossos agentes literalmente dormiram nos sofás!

21:00 – Com tudo assinado, ele falou: o agente Xpto vai te levar ate o container. Sexta feira, tudo apagado, ninguém mais trabalhando. Vinte pessoas lá só por causa do nosso carro! Abrimos o container, o carro estava em uma peça, inteiro, bem amarrado. Liberamos ele e para nossa surpresa ele pegou de primeira após ligar as baterias! Caramba, dois meses parado e ligar de primeira, excelente! Agora precisávamos de uma rampa para tirar o carro do container, mas não havia motoristas para trazer uma… Ai lá vai alguém ligar para um cara, que mora sei lá onde, para vir ajudar nisso…

21:45 – Tiramos o carro do container, um pneu completamente mucho, paramos em frente da aduana e ligamos nosso compressor. Podemos ir embora? Só mais um minuto, estamos finalizando os documentos…

22:10 – Tudo pronto, podemos ir embora? Opa, ainda não, seu agente não pagou a taxa do porto. Como assim? Eu paguei eles 5 dias atrás… pois bem, ele tinha que ter pago hoje e sem isso eu não posso liberar vocês! Só que agora o cara do caixa foi comer e temos que espera-lo. O agente da UPS, que ficou dormindo o dia todo, tinha que pagar uma taxa que ele não sabia, e claro, não tinha dinheiro. Ai lá vai ele atrás de dinheiro e de um caixa eletrônico… Já a fome estava apertando, tínhamos comido os sanduíches no almoço. Achamos uma barrinha de cereal no carro e isso ajudou a enrolar mais um pouco

22:30 – Nosso agente volta sem dinheiro. O cartão dele não funcionou. Dezenas de ligações e nada. E nós ali, tentando manter o bom humor, entender os fatos… o portão do porto ia fechar as 23hrs e já estávamos atrás de uma permissão especial para poder sair depois. Caramba, que dia…

23:15 – Do nada, quando só restava eu a Chel e mais duas pessoas no pátio do porto, vem um cara de moto com o dinheiro, nossos agente havia sumido, atrás de dinheiro. Juro, não entediamos mais nada, só queríamos saber de ir embora!

23:30 – “Vocês estão liberados, já podem ir, mas podemos tirar algumas fotos com vocês e o carro?” – Claro, porque não? Sorriam…

1:15 – Chegamos na casa dos nossos amigos cheios de fome e cansados, mas felizes de estar com o carro!

Índia, segura que aqui vamos nós!

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